top of page

Em Defesa do Ócio Criativo

Porque às vezes é necessário parar para continuar produzindo. 


Momentos do filme Serviços de Entrega da Kiki, do Studio Ghibli.
Momentos do filme Serviços de Entrega da Kiki, do Studio Ghibli.

O culto à produtividade é uma realidade para todos, não apenas para os artistas — mas talvez principalmente para os artistas. Ele sabe que não basta apenas praticar sua arte diariamente: deve ser sua própria equipe de marketing, administração, financeiro e a lista de funções só aumenta. A verdade é que uma mente cansada por estímulos não consegue se concentrar, muito menos criar, mas fazer uma pausa pode ser mais difícil do que se imagina.

Esse termo nasce do livro Ócio criativo, do sociólogo Domenico De Masi. Para ele, é mais do que "não fazer nada", mas sim encontrar equilíbrio entre trabalho, lazer e aprendizado. A ideia é simples: quando a mente está relaxada, ela se torna mais fértil para ideias inovadoras e soluções criativas. Ao contrário do que muitos pensam, o ócio criativo não é preguiça, é um momento de pausa que permite que a criatividade floresça.

Em vez de ocuparmos cada minuto com tarefas e compromissos, devemos cultivar momentos de descontração, onde podemos ler, aprender algo novo, nos conectar com a arte ou simplesmente deixar a mente divagar. Mas por que não conseguimos?

Você já se sentiu culpado por estar sem fazer nada? O filósofo Bertrand Russell, em Elogio ao Ócio, de 1932, colocou por terra essa concepção de que o trabalho sempre edifica o homem — e que o contrário seria a sua perdição. Segundo o autor, se as pessoas tivessem uma carga de trabalho reduzida, poderiam se dedicar mais a tarefas monótonas, mas que, de certa forma, induzem a uma alegria e bem-estar. 

Essa culpa não tem raízes apenas internas, mas externas também. Nosso próprio modo de vida coloca o trabalho como o centro de nossas preocupações. O lazer, nossa terceira via, também é reformulado por uma lógica de produtividade: maratonar séries, acompanhar as trends, ver um pergaminho digital sem fim, sempre ao alcance de nossas mãos etc. Os próprios passatempos, ou hobbies,  ganham metas e passam a se tornar mais um produto para consumirmos desenfreadamente. 


Mulher jovem com hobbies e interesses.
Mulher jovem com hobbies e interesses.

Quando há uma lógica produtivista por trás do que entendemos como lazer, isso não pode ser considerado ócio criativo. É muito mais um momento de introspecção, para deixar a imaginação fluir. Julia Cameron, no livro O caminho do artista, traz uma ideia bem legal para quem quer criar, mas se sente frustrado demais para isso: o encontro com o artista. 

Para além de manter sempre um caderno em mãos, para quando é necessário conversar com si mesmo, o artista precisa se encontrar. Isso significa fazer algo que lhe agrade, sem esperar algo em troca por isso: cozinhar sua comida favorita, caminhar entre árvores, flanar pela cidade, ouvir uma música, ler um livro... qualquer coisa que lhe faça reconectar com o seu eu artístico. 

Eu me lembro que, quando criança (fui uma criança sem telas, que conseguiu viver uma infância de anos 80 durante os anos 2000 numa cidade do interior), eu passava muito tempo sem fazer nada. Estava cansada dos brinquedos, dos programas de TV, até dos livros, só queria ficar sem fazer nada, ouvindo os ruídos ao meu redor. Muitas histórias surgiram assim.

É incrível o que a sua mente pode criar se você se permitir sentir-se um pouco entediado. 

1 comentário


mathvas97
11 de ago. de 2025

Adorei o texto!!


Curtir
bottom of page